Eu Sou a Protagonista da Minha Vida

Eu Sou a Protagonista da Minha Vida

5 de mar. de 2011

Pedagogia 1º Semestre - LP - Gêneros e Aspectos Gramaticais

UNICASTELO – Pedagogia / Prática de Leitura, Análise e Produção de Textos

I - Recado ao senhor 903 - Rubem Braga

Vizinho –
Quem fala aqui é o homem do 1003. Recebi outro dia, consternado, a visita do zelador, que me mostrou a carta em que
o senhor reclamava contra o barulho em meu apartamento. Recebi depois a sua própria visita pessoal – devia ser meia-noite
– e a sua veemente reclamação verbal. Devo dizer que estou desolado com tudo isso, e lhe dou inteira razão. O regulamento
do prédio é explícito e, se não o fosse, o senhor ainda teria ao seu lado a Lei e a Polícia. Quem trabalha o dia inteiro tem
direito ao repouso noturno e é impossível repousar no 903 quando há vozes, passos e músicas no 1003. Ou melhor: é
impossível ao 903 dormir quando o 1003 se agita; pois como não sei o seu nome nem o senhor sabe o meu, ficamos reduzidos
a ser dois números, dois números empilhados entre dezenas de outros. Eu, 1003, me limito, a Leste pelo 1005, a Oeste
pelo 1001, ao Sul pelo Oceano Atlântico, ao Norte pelo 1004, ao alto pelo 1103 e embaixo pelo 903 - que é o senhor. Todos
esses números são comportados e silenciosos: apenas eu e o Oceano Atlântico fazemos algum ruído e funcionamos fora dos
horários civis; nós dois apenas nos agitamos e bramimos ao sabor da maré, dos ventos e da lua. Prometo sinceramente adotar,
depois das 22 horas, de hoje em diante, um comportamento de manso lago azul. Prometo. Quem vier à minha casa (perdão;
ao meu número) será convidado a se retirar às 21:45, e explicarei: o 903 precisa repousar das 22 às 7 pois às 8:15 deve deixar
o 783 para tomar o 109 que o levará até o 527 de outra rua, onde ele trabalha na sala 305. Nossa vida, vizinho, está toda
numerada: e reconheço que ela só pode ser tolerável quando um número não incomoda outro número, mas o respeita, ficando
dentro dos limites de seus algarismos. Peço-lhe desculpas e prometo silêncio.
... Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e
dissesse: “Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou”. E o outro respondesse: “Entra, vizinho,
e come de meu pão e bebe de meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a lua é
bela”.
E o homem trouxesse sua mulher, e os dois ficassem entre os amigos e amigas do vizinho entoando canções para
agradecer a Deus o brilho das estrelas e o murmúrio da brisa nas árvores, e o dom da vida, e a amizade entre os homens, e o
amor e a paz.

II - A pós-mulher – Mário Prata

Esse negócio de dizer minha ex-mulher, ou a ex-mulher do fulano, acabou. Agora se diz minha pós-mulher. A
invenção não é minha, muito menos as mulheres. Quem me soprou a inovação foi uma bela mulher de 52 anos, algumas vezes
pós e que hoje, pasme!, dá aula para homens sobre o que é uma pós-mulher.
Claro que o surgimento da pós-mulher não elimina as ex-mulheres. Portanto nem todas as ex-mulheres tornam-se,
automaticamente, pós-mulheres. Sim, porque tem ex-mulher que nasceu para ser ex-mulher o resto da vida. São aquelas
que se dedicam a infernizar a vida do ex, a quem chamam – sempre! – de falecido. Muito embora o falecido seja obrigado a
depositar uma grana viva todo mês para que ela se conserve na posição de ex.
Já a pós-mulher descobriu que ser ex a nivela a times de futebol e agências de publicidade. Fulana, ex-DPZ, ex-Salles,
ex-W, ex-Julio Ribeiro, ex- Alcântara Machado. Já a pós, pode se orgulhar de ser uma pós-Ricardão.
O ex que a mulher carrega, a prende eternamente ao “falecido”. É como se ela vivesse grudada umbilicalmente a ele. Já
a pós, dá a nítida impressão que já passou pelo sujeito. Que ela avançou na vida, que é, digamos, pós-graduada em homem.
Um pós-mulher entende de homens como ninguém. Uma ex-mulher será definitivamente uma ex, dando a impressão que ela
é quem foi a abandonada.
A ex-mulher leva embora a impressão de ter ficado apenas com as partes ruins do ex. Como se ela não tivesse
aproveitado nada da convivência de alguns anos. A pós-mulher sai de cabeça erguida, ciente de ter sugado tudo do antigo
amor e estar preparada para outras aventuras e vidas e amores.
A pós-mulher é independente, é claro. Ao contrário da ex que não consegue passar um dia sem imaginar maldades pra
o coitado.
A pós se orgulha de ser pós. Mesmo que o marido tenha sido um fracasso com ela, ela pode se dizer é hoje ela é pós-
ele, ou seja, superior, liberta. E, se o cara for legal, mais sentido ainda faz ser pós-dele. Aliás, as grandes pós-mulheres se
orgulham de suas condições.
E tem mais: uma pós honesta e esperta é pós apenas uma vez na vida. Torna-se doutora, phd em homem, senhora de si
e orgulho para os filhos.
Vou dar um exemplo de uma pós-mulher. A prefeita de São Paulo. Ela não é ex-mulher do Eduardo. Ela é pós-Eduardo.
Cresceu com ele, aprendeu com ele e deve se orgulhar de ser pós-mulher dele. Já a Nicéia é ex-mulher do Pitta. Entendeu a
diferença gritante entre uma ex e uma pós?
E eu, modesto, não tenho nenhuma ex. Tenho duas maravilhosas pós-mulheres.
E você, é ex ou pós?
Não se esqueça que a pós-mulher está acima de qualquer intriga com o antigo marido, costuma resolver problemas
para ele e será para sempre não uma ex, mas uma eterna companheira. Uma mulher do pós-futuro.

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III - Titia em apuros - Carlos Eduardo Novaes

Minha tia Valda, uma robusta senhora de 68 anos, gostou de uma camisa pólo que viu na vitrine de uma loja de artigos
masculinos. Entrou e pediu para experimentar.
− Infelizmente não temos o seu tamanho nessa cor − respondeu o vendedor, solícito.
Não sei se é uma maldição que persegue nossa família, mas nunca conseguimos os artigos que nos atraem nas
vitrines. Não tem a cor ou não tem o modelo ou não tem o tamanho. Uma ocasião, apaixonei-me por um sapato que vi numa
vitrine em Copacabana. O vendedor fez-me sentar e apareceu com outro modelo (achando que ia me levar na conversa).
− Quero aquele da vitrine!
− Infelizmente − disse ele −, aquele nós só temos um pé!
É ou não é uma maldição? Acontece de tudo para frustrar os desejos de consumo de nossa família. É inacreditável, um
sapato na vitrine sem seu par. Levantei-me e reagi, carregado de indignação:
− O que houve com o outro pé? Venderam para o Saci?
Tia Valda mal iniciou a ação de bater em retirada, e o vendedor logo despejou um monte de camisas à sua frente.
− Temos essa verde... essa lilás... essa que chegou agora, cor telha, é a última novidade − foi dizendo o vendedor,
abrindo as camisas diante de titia. − A senhora deve ficar muito bem de lilás.
Tia Valda preferiu a preta. Pegou a camisa e viu a letra P na etiqueta. Perguntou se não tinha M. Não tinha, mas para
não perder a comissão, o vendedor preferiu dizer que P era tamanho da titia. Qualquer vesgo verificaria que tia Valda, com
seu corpo de halterofilista búlgara, não caberia dentro daquela camisa. O vendedor, porém, veio com a conversa de que o
fabricante fazia números maiores e coisa e tal. Titia acreditou e se enfiou no cubículo de experimentar roupas, que só não
se confunde com uma solitária porque há uma cortina no lugar das grades. Vestiu a camisa, constatou que o P significava P
mesmo e, no momento de retirá-la, ela ficou presa no meio do caminho, cobrindo a cabeça de titia.
Tia Valda ainda insistiu, debatendo-se entre as paredes do cubículo, mas a camisa encalhara como um navio num
banco de areia. Braços erguidos, rosto coberto, titia começou a sentir calor, falta de ar e foi entrando em pânico. Para não sair
da cabine às cegas, feito um boi-bumbá, resolveu gritar. Mas gritar o quê? Nunca tinha estado numa situação dessas. O que
gritar quando se luta desesperadamente com uma camisa? Sem se lembrar de nada em especial, encheu os pulmões e berrou:
− Socorro! Socorro!
Era de ver: a loja inteira se despencou na direção da cabine, vendedores, fregueses, até a moça do caixa foi atrás. Não
se podia pensar num assalto: não cabem duas pessoas nessas cabines. Talvez uma barata. O vendedor que a atendia puxou a
cortina e surgiu tia Valda, braços levantados, cabeça coberta, rodopiando feito uma vaca brava.
− Momentinho − pediu o vendedor −, fique calma que nós vamos ajudá-la.
Ele tentou puxar a camisa, mas a essa altura tia Valda tinha o corpo empapado de suor e a camisa resistia mais do que
um burro empacado.
− Eu puxo aqui e você puxa daí − disse para o gerente. Os dois se esforçavam, mas a cada puxão a velha ia junto com a
camisa.
− Alguém aí, por favor, segure a madame − pediu o vendedor, recebendo de pronto a colaboração de vários voluntários.
Tia Valda bufava no meio daquele sufoco e estava vendo a hora que iriam lhe arrebentar o sutiã. Na sua idade já não se sentia
à vontade para fazer um topless numa loja de artigos masculinos.
− Por que não cortam a camisa? − perguntou alguém do grupo de voluntários que seguia cambaleando pela loja,
empencado em tia Valda.
− Não precisa cortar, nós vamos dar um jeitinho −disse o vendedor, que já suava mais que titia e não queria pagar a
camisa.
A essa altura, já havia uma multidão à porta da loja assistindo à cena. Muita gente não entendia o que se passava, ao
ver um grupo de homens agarrados a uma senhora de braços erguidos, entalada por uma camisa. Uma velhinha, na porta,
imaginou, com toda razão, que o grupo estava querendo despir tia Valda para violentá-la na loja, e resmungou:
− Esses vendedores são uns tarados!
A confusão aumentava. Tia Valda, camisa grudada no corpo, pedia que chamassem o Corpo de Bombeiros. Alguém
sugeriu que sentassem titia.
− Amarrem essa velha numa cadeira!
Depois de muito esforço, a camisa acabou sendo rasgada, para alívio de tia Valda, que arfava como se tivesse passado
todo esse tempo debaixo d´água. Ela agradeceu os aplausos e voltou à cabine para se recompor. No momento em que
abotoava a blusa, viu um braço varando a cortina do cubículo. Era o vendedor, entregando-lhe uma camisa e dizendo:
− A senhora não gostaria de experimentar este outro modelo?

UNICASTELO – Pedagogia - Prática de Leitura, Análise e Produção de Textos

IV – Um zero para as professoras –  Regina Drummond

Era uma vez... Ai, é só a gente deixar que as histórias comecem sozinhas que elas vão direto para o "Era uma vez.."
Está bem. Hoje, vou deixar.
Era uma vez, uma menininha que adorava brincar de professora.
Quando as amigas chegavam, ela dizia:
"Vamos brincar de escolinha? Eu sou a professora."
E, se naquele dia ela estivesse brincando sozinha, não tinha problema: ela sentava as bonecas em fileiras a sua frente e
ficava dando aula para elas, a voz pausada e grave, o dedo em riste:
"Hoje, nós vamos falar de..."
Ela imitava a sua professora na escola, igualzinha, porque admirava-a muito. Tudo era "a minha professora".Todos os
dias, a menina contava para a mãe o que tinha acontecido na escola, com os mais miúdos e específicos detalhes que conseguia
— e vice-versa, claro, porque sentia que a professora era sua amiga de verdade, uma pessoa em quem ela podia confiar.
Sentada no chão com uma, debruçada na mesa da outra, histórias e mais histórias, reais e imaginárias, eram tecidas com os
fios castanhos dos cabelos da princesa...
"A minha professora disse que..." era uma frase com a força de mil cavalos. Podia ser o que fosse — nem Deus
contestava! (mesmo porque até Ele sabia que não iria adiantar nada!).
Um dia, o pai viu quando ela colocava, disfarçadamente, uma maçã na mochila.
"Eu já pus a sua merenda.", disse ele.
"Esta é para a minha professora", respondeu a menina.
O pai começou a rir:
"Xi, essa de levar maçã para a professora é manjada...! Acho que não funciona mais, não!"
Ela empinou o nariz e não disse nada.
No final do dia, estava exultante:
"Você disse que não adiantava levar uma maçã para a minha professora, é? Pois vou lhe dizer uma coisa: ela a-d-o-r-o-
u!!!"
Quando a professora lhe dizia que ela era linda, era assim que ela se sentia.
Quando a professora lhe dizia que ela era inteligente e capaz, era assim que ela se via.
Quando a professora lhe dizia "Eu tenho orgulho de ter uma aluna como você!", era com a maior alegria que ela se
esforçava mais um pouquinho para ser sempre digna da professora que tinha — e dos elogios, é claro!
"O que você vai ser quando crescer?", perguntavam as pessoas.
Ela enchia o peito de orgulho e respondia sem piscar:"Professora."
Seu destino estava selado!
Ela bem que poderia ter escapado! Mas quem resiste ao canto da sereia do prazer de se fazer o que se gosta??? Por que
ela não foi ser médica-engenheira-advogada-dentista como todo mundo???
Não precisaria, diariamente, levantar-se antes do sol, enfrentar os ônibus e os engarrafamentos, tourear 40 crianças
com necessidades individuais — e todas com uma mãe que as achava dignas das mais especiais atenções, e todas com um
pai, duas avós, várias tias e inúmeras amigas dando palpite em tudo!!! E ainda tinha a diretora, sempre exigindo mais, e as
colegas, com as suas picuinhas e as suas dificuldades, e a vida normal que não parava, marido, casa, filhos... Ela passava
batom no sorriso e seguia em frente, levando alegria e entusiasmo para todos a sua volta, ajudando um, amparando outro,
dando mais atenção a um terceiro...
De vez em quando, bem que dava vontade de desistir! Mas ai, justo quando ela estava assim, meio desanimada,
devagar-quase-parando, aquela menininha quietinha do cantinho à esquerda levava uma maçã para ela e oferecia-a,
timidamente, como quem pede desculpas. Era a maçã do amor mais verdadeira — e ela se esquecia de tudo, e ficava feliz outra
vez, e achava que a sua vida era maravilhosa, porque ela estava sempre recebendo triplicada a alegria que dava e ela, então,
atiçava a coragem e o desprendimento que sempre tinha de reserva no coração, para que eles empunhassem as suas espadas
e atacassem, prontos para destruir todos os monstros que ameaçavam impedi-la de seguir a sua vocação, que era o seu prazer
maior.
Há certas coisas que a gente só faz por amor. No sorriso e na espontaneidade das crianças, ela tirava o seu verdadeiro
sustento — pois nem mesmo o salário baixo conseguia arrefecer o seu entusiasmo! Ela aprendera a valorizar o que as pessoas
têm por dentro, ignorando as belas embalagens cheias de vento, para assim fazer menores as suas próprias necessidades e
conseguir ser feliz com o que tinha.
Queridas professoras, ainda bem que Deus as faz professoras ainda crianças — caso contrário, o que seria dos nossos
filhos???
Sempre gostei de brincar de ser uma bruxa poderosa. E não posso deixar de pensar em como gostaria que isso fosse
verdade, nem que fosse por um instante só, apenas para fazer uma única magia: dar um zero a cada uma de vocês — no
salário, é claro!

UNICASTELO – LETRAS / Prática de Leitura, Análise e Produção de Textos

V –A lua que não dei – Cecílio Elias Netto

Compreendo pais - e me encanto com eles - que desejariam dar o mundo de presente aos filhos. E, no entanto, abomino
os que, a cada fim de semana, dão tudo o que filhos lhes pedem nos shoppings onde exercitam arremedos de paternidade. E
não há paradoxo nisso. Dar o mundo é sentir-se um pouco como Deus, que é essa a condição de um pai. Dar futilidades como
barganha de amor é, penso eu, renunciar ao sagrado.
Volto a narrar, por me parecer apropriado à croniqueta, o que me aconteceu ao ser pai pela primeira vez. Lá se vão,
pois, 45 anos. Deslumbrado de paixão, eu olhava a menina no berço, via-a sugando os seios da mãe, esperneando na banheira,
dormindo como anjo de carne. E, então, eu me prometia, prometendo-lhe: 'Dar-lhe-ei o mundo, meu amor.' E não lho dei. E
foi o que me salvou do egoísmo, da tola pretensão e da estupidez de confundir valores materiais com morais e espirituais.
Não dei o mundo à minha filha, mas ela quis a Lua. E não me esqueço de como ela pediu, a Lua, há anos já tão
distantes. Eu a carregava nos braços, pequenina e apenas balbuciante, andando na calçada de nosso quarteirão, em tempos
mais amenos, quando as pessoas conversavam às portas das casas. Com ela junto ao peito, sentia-me o mais feliz homem do
mundo, andando, cantarolando cantigas de ninar em plena calçada. Pois é a plenitude da felicidade um homem jovem poder
carregar um filho como se acariciando as próprias entranhas. Minha filha era eu e eu era ela. Um pai é, sim, um pequeno
Deus, o criador. E seu filho, a criatura bem amada.
E foi, então, que conheci a impotência e os limites humanos. Pois a filhinha - a quem eu prometera o mundo - ergueu
os bracinhos para o alto e começou a quase gritar, assanhada, deslumbrada: 'Dá, dá, dá...' Ela descobrira a Lua e a queria para
si, como ursinho de pelúcia, uma luminosa bola de brincar. Diante da magia do céu enfeitado de estrelas e de luar, minha filha
me pediu a Lua e eu não lha pude dar..
A certeza de meus limites permitiu, porém, criar um pacto entre pai e filhos: se eles quisessem o impossível, fossem em
busca dele. Eu lhes dera a vida, asas de voar, diretrizes, crença no amor e, portanto, estímulo aos grandes sonhos. E o sonho
da primogênita começou a acontecer, num simbolismo que, ainda hoje, me amolece o coração. Pois, ainda adolescente, lá
se foi ela embora, querendo estudar no Exterior. Vi-a embarcar, a alma sangrando-me de saudade, a voz profética de Kalil
Gibran em sussurros de consolo:
'Vossos filhos não são vossos filhos, mas são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.. Eles vêm através
de vós, mas não de nós. E embora vivam convosco, não vos pertencem. (...) Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são
arremessados como flechas vivas.'
Foi o que vivi, quando o avião decolou, minha criança a bordo. No céu, havia uma Lua enorme, imensa. A certeza da
separação foi dilacerante. Minha filha fôra buscar a Lua que eu não lhe dera.
E eu precisava conviver com a coerência do que transmitira aos filhos: 'O lar não é o lugar de se ficar, mas para onde
voltar.'
Que os filhos sejam preparados para irem-se, com a certeza de ter para onde voltar quando o cansaço, a derrota ou o
desânimo inevitáveis lhes machucarem a alma. Ao ver o avião, como num filme de Spielberg, sombrear a Lua, levando-me a
filha querida, o salgado das lágrimas se transformou em doçura de conforto com Kalil Gibran: como pai, não dando o mundo
nem Lua aos filhos, me senti arqueiro e arco, arremessando a flecha viva em direção ao mistério.
Ora, mesmo sendo avós, temos, sim e ainda, filhos a criar, pois família é uma tribo em construção permanente. Pais
envelhecem, filhos crescem, dão-nos netos e isso é a construção, o centro do mundo onde a obra da criação se renova sem
nunca completar-se. De guerreiros que foram, pais se tornam pajés. E mães, curandeiras de alma e de corpo. É quando a
tribo se fortalece com conselheiros, sábios que conhecem os mistérios da grande arquitetura familiar, com régua, esquadro,
compasso e fio de prumo. E com palmatória moral para ensinar o óbvio: se o dever premia, o erro cobra.
Escrevo, pois, de angústias, acho que angústias de pajé, de índio velho. A nossa construção está ruindo, pois feita em
areia movediça. É minúsculo o mundo que pais querem dar aos filhos: o dos shoppings. E não há mais crianças e adolescentes
desejando a Lua como brinquedo ou como conquista. Sem sonhos, os tetos são baixos e o infinito pode ser comprado em lojas.
Sem sonhos, não há necessidade de arqueiros arremessando flechas vivas.
Na construção familiar, temos erguido paredes. Mas, dentro delas, haverá gente de verdade?

(Cecílio Elias Netto é escritor e jornalista. E-mail: celiato@terra.com.br. Crônica publicada em 01/08/2008 no 'Correio
Popular' - Campinas)

UNICASTELO – LETRAS / Prática de Leitura, Análise e Produção de Textos

VI – As Crianças Chatas – Clarice Lispector

Não posso. Não posso pensar na cena que visualizei e que é real. O filho que está de noite com dor de fome
e diz para a mãe: estou com fome, mamãe. Ela responde com doçura: dorme. Ele diz: mas estou com fome. Ela
insiste: durma. Ele diz: não posso, estou com fome. Ela repete exasperada: durma. Ele insiste. Ela grita com dor:
durma, seu chato! Os dois ficam em silêncio no escuro, imóveis. Será que ele está dormindo? - pensa ela toda
acordada. E ele está amedrontado demais para se queixar. Na noite negra os dois estão despertos. Até que, de dor
e cansaço, ambos cochilam, no ninho da resignação. E eu não agüento a resignação Ah, como devoro com fome e
prazer a revolta. (19 de agosto de 1967)

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