Graças a depoimentos como esses que eu superei meus preconceitos contra homossexuais. Sim, já fui preconceituosa, infelizmente. Não aquele preconceito descarado, mas o pior deles, aquele velado, cheio de justificativas idiotas.
Foi através de conversas com amigos gays e, principalmente, observando as crianças que vejo que a homossexualidade não é bem uma opção, como dizem, mas uma condição.
Confesso que para mim é muito mais natural ver dois homens se beijando do que duas mulheres, acho que talvez, pelos anos e anos pensando pelo senso comum e não pela minha própria cabeça.
Não é porque nunca quis me casar e sou uma solteirona convicta e cheia de gatos, como os rotuladores adoram - kkk - que eu não goste de histórias de amor. Já vivi algumas e espero ainda viver mais. Eu sou, sim, contra o casamento - o meu - e não contra o amor, então, eu acho que cada um deve viver como quiser e amar quem quiser e eu acredito que só os mal amados e os que não se amam é que se incomodam tanto com a vida dos outros.
Muito bom esse depoimento do Jean e eu não sabia ainda desta história do Alex que é muito triste e, infelizmente, muito mais comum do que imaginamos.
(Comentário referente ao texto abaixo):
"Para Alex, com carinho
Quem me
acompanha por aqui sabe que não tenho, por hábito, tratar de minha vida
privada nem de minha intimidade. Concentro-me em debater idéias e fatos,
sobretudo os ligados ao meu trabalho ou ao meu consumo cultural. Mas hoje vou abrir uma exceção...
Talvez seja a proximidade do aniversário de 40 anos, talvez seja o
acúmulo de sentimentos não processados devido ao trabalho árduo dos
últimos três anos, mas a verdade é que ando à flor da pele...
Hoje tive uma crise de choro ao ouvir, vinda da lanchonete da esquina, a
música "No dia em que eu saí de casa". A letra descreve quase que em
detalhes um episódio de minha vida (e, por isso mesmo, as lembranças de
minha mãe foram tão inevitáveis quanto as lágrimas):
"No dia em
que saí de casa, minha mãe me disse 'filho, vem cá'; passou a mão em
meus cabelos; olhou em meus olhos e começou falar: 'por onde você for,
eu sigo com meu pensamento sempre, onde estiver; em minhas orações, eu
vou pedir a Deus que ilumine os passos seus'.
Eu sei que ela
nunca compreendeu os meus motivos de sair de lá, mas ela sabe que,
depois que cresce, o filho vira passarinho e quer voar. Eu bem queria
continuar ali, mas o destino quis me contrariar... E o olhar de minha
mãe na porta, eu deixei chorando a me abençoar!
A minha mãe,
naquele dia, me falou do mundo como ele é; parece que ela conhecia cada
pedra que eu iria por o pé. E sempre ao lado do meu pai, da pequena
cidade, ela jamais saiu... Ela me disse assim: 'meu filho, vá com Deus
que este mundo inteiro é seu!".
Depois de ouvir essa música,
ainda sentado ao computador para concluir uns textos, li a matéria de O
Globo com a história completa do garotinho Alex, morto a pancadas pelo
próprio pai para que "tomasse jeito de homem". Alex, natural de Mossoró,
RN, fora enviado, pela mãe, ao Rio de Janeiro para viver com o pai,
desempregado e envolvido com o tráfico de drogas, porque ela, mãe de
outros três filhos (também criados por terceiros), poderia perder a
guarda de Alex por não enviá-lo à escola, já que não tinha meios para
tal.
Olhei a foto do enterro de Alex e meu coração se apertou
ao perceber que não havia quase ninguém lá... Sozinha, aquela semente
indefesa esmagada violentamente por sua natural exuberância, não tinha
ninguém por ela na despedida dessa vida que lhe foi tão injusta.
Meu coração se partiu e não pude controlar os soluços de choro. Por um instante, vi-me naquele caixão, sem futuro...
Semelhante a Alex, quando criança, eu também não tinha "jeito de
homem"; gosta de brincar com as meninas, de roda; de desenhar no chão
com palitos de fósforo riscados e pegava, escondido, as bonecas de
plástico baratas de minhas primas; semelhante a Alex, eu gostava de
cantar e dançar e essa minha diferença me tornava alvo de injúrias e
insultos desde que me entendo por gente. Cresci sob apelidos grosseiros e
arremedos feitos pelos de fora. Naquela miséria em que eu vivia na
infância, trabalhando desde os dez anos de idade nas ruas, o meu
"jeitinho" me fazia vulnerável... e eu sabia disso ou, ao menos, intuía;
por isso, dediquei-me aos estudos e ao exercício da minha inteligência.
Busquei ser um menino admirável na escola e na Igreja para que meus
pais não tivessem desculpas para me bater por aquilo que eu não podia
mudar em mim. Nem minha mãe amada nem meu pai que já se foi me
espancaram por eu ser diferente, mas, ante os insultos e as injúrias de
que eu era vítima, ambos me pressionavam com olhares e cobranças e meu
pai, em particular, com um distanciamento.
Minha estratégia de
sobrevivência deu certo, em casa e na escola. Transformei-me num
adolescente inteligente e admirado. No movimento pastoral, aprendi a me
levantar contra as injustiças (inclusive contra aquelas de que eu era
vítima); aprendi o que era a homossexualidade e que havia outros iguais a
mim, o que me levou a passar da vergonha para o orgulho do que era.
Cursei, depois de um disputado vestibular, um dos mais cobiçados
colégios técnicos da Bahia. E virei orgulho de meus pais, irmãos e de
todos os meus familiares e vizinhos que me insultaram. Tanto que, no dia
em que saí de casa de vez, rumo a Salvador, os olhos de minha mãe amada
diziam: "Meu filho, vá com Deus que esse mundo inteiro é seu". E é!
Mas eu e outros poucos que escapamos dos destinos imperfeitos ainda
somos exceções. A regra é ser expulso de casa ou fugir como meio de
sobreviver; é descer ao inferno da exclusão social e da falta de
oportunidades; ou ter o futuro abortado pela violência doméstica, como
aconteceu com o pequeno Alex...
Hoje eu quis, do fundo de meu
coração, ter encontrado Alex antes de sua morte violenta e trazê-lo para
preto de mim; quis voltar o tempo e livrá-lo da miséria em Mossoró e
das mãos de seu algoz; de chamá-lo de "filho"; olhar em seus olhos e
dizer "Por onde você for, eu te seguirei com meu pensamento pra te
proteger"; quis apresentá-lo à minha mãe para que ela dissesse, a ele,
"seu pai era igual a você quando criança e hoje eu tenho muito orgulho
dele"...
Não deu, Alex. O destino nos contrariou: não nos quis
juntos. Mas, em minhas orações, eu vou pedir a Deus, se é que ele existe
mesmo, que ilumine sua alma..." (Jean Wyllys)
https://www.facebook.com/jean.wyllys
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