Eu Sou a Protagonista da Minha Vida

Eu Sou a Protagonista da Minha Vida

25 de jan. de 2013

Aprendendo muito convivendo com pessoas da melhor idade...

Eu sempre tive vontade de trabalhar em hospital, já que, há anos trabalho na área da saúde (8 anos na Clincorp e 4 anos na Unimed Paulistana) e, mesmo ainda quando trabalhava na Unimed, eu pensava que gostaria de trabalhar no hospital deles.

Neste período em que fiquei desempregada, fiz entrevistas ligadas a área da saúde e uma delas foi no Hospital AC Camargo. Mas confesso que, quando entrei no hospital e, mesmo só tendo visto um senhor na ala onde fui, acabei lembrando dos meus pais, mas especificamente, do meu pai, já que aquele é um hospital de referência na área da oncologia e o meu pai morreu de câncer. Saí de lá meio confusa, achando que não estava preparada e que ia me fazer mal e, poucos dias depois, fiquei sabendo que não havia rolado o emprego.

Mas antes disso eu já havia feito entrevista na Prevent Senior e, por causa do horário da faculdade, a moça disse que só entraria em contato em janeiro, mas achei que nem ia ligar. Fiquei triste porque achei o salário bom e queria trabalhar lá, mesmo nem sabendo ao certo o que teria que fazer, apenas sabia que estava ligado ao atendimento e nisso eu trabalhei minha vida toda. Mas como eles têm várias unidades, poderia ser para qualquer uma deles. E eu já conhecia o convênio e sabia que o público deles são os idosos.

Enfim, em dezembro me ligaram e fiquei bem surpresa. Fiz duas entrevistas , uma não rolou, mas aconteceu na outra o que pra mim foi bem melhor porque o horário é bem mais flexível, mas só me chamaram no começo de janeiro. Mas, para a minha surpresa fui trabalhar em uma unidade (hospital, como eu queria) onde a especialidade principal é a oncologia. Ah, e tem um detalhe, a ala onde eu trabalho, que é o setor de Tomografia, é de frente para o necrotério e nos primeiros dias, todos eles eu vi o carro da funerária parado com um caixão dentro.

Fora isso, também todos os dias chega alguma maca com algum paciente que eu me pergunto como é que ainda estão vivos? Mas, para a minha surpresa, eu não fico tão impressionada, não é como eu imaginava que seria, que eu ia lembrar dos meus pais o tempo todo com tristeza. Pelo contrário, como eu adoro falar, converso muito com alguns e até comento dos meus pais e trocamos idéias sobre o assunto sem aquela coisa pesada da morte rondando como um fantasma.

Todos os dias tem sempre um que me toca mais, que me faz sentir feliz de estar lá, apesar da tensão de aprender tantas coisas novas e ainda fazer algumas coisas erradas e esquecer de fazer outras. Acho que no segundo dia em que eu estava trabalhando, apareceu uma que estava com a clavícula quebrada. Ela estava toda linda arrumadinha e me disse que na véspera de Natal tentava abrir uma gaveta emperrada e colocou um pouco de óleo e a gaveta abriu com tanta força que acabou caindo nela. Ela me disse que mora sozinha e que não achava que tinha sido tão sério, mas quando amanheceu inchada e com o tórax todo escuro, resolveu procurar o hospital no dia de Natal. Enquanto ela falava eu ficava me imaginando daqui alguns anos. Eu amo morar sozinha e não gostaria de ter que abrir mão disso nunca, mas admito que nas horas em que fico doente, morar sozinha é bem complicado. Mas vou deixar para pensar nisso mais pra frente porque, por enquanto, eu quero mesmo é curtir os meus momentos de liberdade na minha casa, com minhas coisas.

Ontem me apareceu duas lições de vida. Primeiro, foi um senhorzinho que estava aguardando para fazer exame solicitado no PS. O filho, também já um senhor, precisava pegar alguma coisa no carro e disse para ele, como se fala com uma criança, que voltava logo e para ele não sair de lá. E olhei a cena e falei: "Pode deixar senhor, eu fico de olho nele e não deixo ele fugir", os dois deram risada e eu fiquei conversando com o senhor. Ele me disse que a esposa tinha partido há um ano e meio e que ele morava sozinho na casa onde moraram a vida toda porque não queria sair de lá, era lá que ele sabia que ela o protegia e ele tinha vizinhos e amigos por perto quando precisasse, além do filho que também sempre estava por perto e que a nora era uma filha e que as netas eram super carinhosas e que quando Deus chamasse ele estava pronto para ir. Uma graça, dava vontade de dar aqueles abraços bem apertados.

E pouco depois disso, chegou uma senhora em uma maca transferida de outra unidade que veio só para fazer o exame, pois estava internada lá. Vocês tinham que ver que luxo. Toda arrumada e de batom. Mesmo deitadinha ela chegou cumprimentado todo mundo. Eu fui conversar um pouco com ela e ela me disse que naquele dia que estava um pouco melhor porque nos outros estava para baixo e a empregada dela quando soube que ela ia sair de ambulância para fazer exame, arrumou ela e passou batom porque não iria deixar ela sair sem estar arrumada e ela disse que se sentou ainda melhor arrumadinha. Outra que dei vontade de amassar de tão fofa.

Sei que para muitos isso que eu escrevi é tão bobo, tão sem graça. Mas eu gosto de dar valor as pequenas coisas. E em um mundo onde todos os dias a gente vê ou escuta falar sobre crimes, assaltos, mal tratos com animais, crianças e idosos, essas pequenas coisas mas faz sentir que a vida ainda vale a pena.








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